20/12/2018 • 00:00

Por Hector Bisi
De Paris


Then there was the bad weather, e é nessa Paris de Hemingways e novembros e chuvas que me mando para o Les Inrocks Festival, na Gaité Lyrique, um teatro belle époque com uma pista supercool no segundo andar, mistura de moderno e antigo que não larga a cidade-selfie.
Invenção da Les Inrockuptibles, minha revista de música, literatura e cultura pop préféré, e bota acento nisso, o festival tem vários dias de shows, filmes e talks com uma turma mortal, como se diz por aqui. Escolho a sexta, 23, perco a primeira banda por causa da chuva e entro direto no mundo em câmera lenta de Johan Papaconstantino, um grego que combina orientalismos com guitarra e se apresenta paradão, mexendo só o braço direito no ar, nonchalance pra francês ver. J’sais pas é OK, mas é o hit J’aimerai, tocado com uma cítara, que levanta os braços dos poucos fãs que cantam junto.



Pausa, vinho, francesas vestidas de outono. Entra agora uma novinha mal-vestida, de abrigo esportivo com todas as cores que você pode imaginar e uma voz que você não, não  imagina. É Lolo Zouai, loirinha francesa criada na Califórnia e, Sooo real, Sooooooo real abre o show e pega na veia e o festival começa a esquentar e ela mistura influências da Argélia paterna com pop music e tem um je ne sais quoi de Avril Lavigne mas com biquinho, Oh la la, eu sou quente pra você, Oh la la, por que eu sou assim?, diz em Brooklyn Love, balada adolescente com trechos em inglês e francês não indicados para diabéticos. A gente nunca se diz eu te amo mas tudo bem, e mais, MMs de amendoim são os seus preferidos. Emenda uma For The Crowd, literalmente jogando para a galera, fica só de blusinha, canta mais umas duas e c’est fini. Pausa, mais vinho, blá blá blá.


Myth Syzer is in da houseeee. O rapper branco e sua gangue (Ichon, Bonnie Banane e Muddy Monk) tocam o terror, Robespierres de uma nova revolução na cena musical francesa, cena que começou lá atrás em 1997 com os homens-robôs do Daft Punk e seu Homework e que não para de trazer bandas novas e garotas com, sim, de novo, biquinho e nonchalance e, oh mon Dieu, quando uma francesa fala todo mundo ouve quando uma francesa canta ninguém quer voltar pra casa.
Sans Toi abre o show, É preciso que você dance se pensa que vai ser legal a gente ficar junto, yeah, o rap é melódico e dá vontade de beijar. A noite vai ser boa, de tudo vai rolar, vai rolaaar, lembro daquela música Noite do Prazer, aquela do trocando de biquíni sem parar haha. Emendam com Poto, outro hit, e Ichon tremeee, Oh ma Lolo, não quero ser teu chapa. Eu te levo pro restaurante porque eu quero te pegar. Não sou teu marido, não sou teu amante, eu queria ser teu príncipe encantado. Oi?, é isso mesmo?, oui, essa rapeize não tem vergonha de falar de amor. E os francês tudo pira, mon pote (pote = mano)

Myyh Syzer gosta de chamar os amigos pra faire la fête, e Lolo Zouai volta e canta Austin Power com eles. Mas Myth e sua gangue quebram tudo mesmo na sensacional Paroles de toute la nuit e seu refrão-fofo, Baby quando você dança eu quero você para a vida inteira. Tocam mais algumas do album Bisous, como Pot de Colle (Pote de Cola) e vão embora e no bis atacam de Le Code, o hino dessa geração do rap-soft francês, um tipo de Born Slippy em versão monamourzinho.   E Myth, Alô mon amour, eu tô no teu pedaço, me dá o código da tua portaria? E Bonnie Banane, Você quer meu código?, você quer minha chave?, você quer minha senha?, você quer subir? E Muddy Monk e sua voz transgender, Me deixe sonhar que você morre pra que ninguém mais se encante com teu charme. E eu, que não toco nem canto nada, coloco Papa Hemingway na parada. Obrigado por nos ensinar naquele livro essencial que Paris é uma festa móvel. Espero que os próximos anos 20 sejam tão loucos como os da sua lost generation. Mas que a festa vai ter ritmo de rap, isso vai, yo. E com multo l’amour, toujours.



AFFICHE DO LES INROCKS FESTIVAL.